Nesta entrevista, Néstor López, coordenador de programas do Instituto Internacional de Planejamento da Educação (IIPE) UNESCO - Buenos Aires, reflete sobre a situação da educação na região, considerando, dentre outras questões, a expansão dos processos de escolarização e os desafios para alcançar a equidade, as tensões e dificuldades nas relações que a escola estabelece com os/as adolescentes, as transformações nas legislações ocorridas nas últimas décadas, e a heterogeneidade nos processos de implementação das políticas.
De acordo com López, nos últimos 15 anos houve uma expansão significativa da escolarização de crianças, adolescentes e jovens em quase toda a região. Neste processo, foram beneficiados os setores historicamente esquecidos. Deste modo, avançou-se na incorporação de crianças e adolescentes indígenas, afro-descendentes, pobres, e oriundos/as dos setores rurais. Não obstante, a partir de 2004-2005 as taxas de escolarização estancaram e inclusive começaram a diminuir.
Nesta dificuldade da escola para seguir incluindo os alunos, aparecem os problemas estruturais como a pobreza e a exclusão. Mas, além disso, está a dificuldade que do sistema educativo para se relacionar com os/as adolescentes. A escola média vive um dilema: se esta instituição foi pensada para selecionar, hoje se pede à mesma que seja inclusiva e universal. A imagem que se continua tendo do aluno e a do adolescente urbano, branco e de classe média. A escola, como outros organismos do estado, tem uma dificuldade de estabelecer uma relação com a adolescência baseada no reconhecimento de sua identidade e sua cultura, seus interesses, expectativas, medos e dúvidas. Estas questões geram conflitos e propiciam o abandono da escola.
Outro tema pendente é o da aprendizagem. López sinaliza que neste momento existe um debate na região sobre como abordar o problema da qualidade da aprendizagem sem prejudicar a proposta da inclusão educativa.
Com relação às principais transformações legislativas dos processos educativos na América Latina, Nestor López identifica uma tendência ao reconhecimento da educação como um direito e não um privilégio, assim como uma preocupação explícita pela não discriminação. Isso após a superação das reformas dos anos 90, quando a educação era pensada como uma ferramenta de formação de recursos humanos para a participação no mercado.
López conclui propondo que o discurso dos direitos se consolidou e adquiriu legitimidade na região, mas alerta que os dissensos sobre o tema se visibilizam no momento de se designar verbas e executar as políticas. Por outra parte, no que se refere à implementação destas novas leis, ressalta as enormes diferenças que existem entre os países da região. O grau de implementação destas normas ou a possibilidade de convertê-las em políticas dependem, dentre outras coisas, da tradição e da solidez das instituições do estado. |